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Banco para quê? |
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Fonte: Revista Isto É Dinheiro
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Márcio Kroehn
Quem precisa de dinheiro sabe que o banco é o caminho natural para conseguir empréstimo. É praticamente automático, embora as altas taxas nem sempre agradem. O que você faria se pudesse resolver o seu problema financeiro em uma comunidade na internet sem a intermediação bancária?
As vantagens seriam juros menores e prazos adaptados para caber no seu bolso. O que parece brincadeira é uma prática séria e comum nos sites de relacionamento financeiro em outras partes do mundo, como EUA e China. A consultoria Gartner calcula que, desde o surgimento do modelo, há quatro anos, são feitos empréstimos equivalentes a US$ 650 milhões ao ano.
Em 2013, esse mercado deverá movimentar US$ 3,3 bilhões. A nova maneira de conseguir financiamento para pagar dívidas ou alavancar um negócio está chegando ao Brasil. O responsável pela operação é o economista Eldes Mattiuzzo, que se inspirou nos pioneiros americanos Prosper e Kiva para criar a Fairplace.
O conceito do empréstimo de pessoa para pessoa mistura redes sociais como Facebook e Orkut e o site de leilões Mercado Livre. O objetivo é aproximar dois tipos de clientes: os que têm interesse em emprestar recursos para receber em troca uma remuneração e os endividados que buscam taxas menos extorsivas. Vale a lei da oferta e da procura. Ou seja, quem souber argumentar melhor tem mais chances de conseguir o dinheiro.
Nessa comunidade financeira, é preciso estar com o perfil completo e atualizado. É com base nele e nos dados da Serasa Experian que cada solicitante do empréstimo ganhará uma nota que vai do topo “AAA” ao piso “E”. A utilização das letras é semelhante à das agências de classificação de risco para medir os problemas de inadimplência.
Quanto mais próximo ao E, maior é a possibilidade de um calote. Como consequência, é onde estão os maiores prêmios para quem está investindo o seu dinheiro. Se o tomador do empréstimo atrasar mais de 15 dias, o Senarc, empresa especializada em cobrança criada por Celso Amâncio, ex-diretor de crédito da Casas Bahia, entra em ação e utiliza os procedimentos tradicionais de bancos e financeiras, inclusive colocando o nome do devedor na Serasa e no SCPC.
Em um mês de atividade da Fairplace, 340 pessoas depositaram R$ 144 mil para oferecer como empréstimo e houve 340 pedidos que, juntos, somaram R$ 1,3 milhão. Até o momento, apenas R$ 115 mil foram liberados para 37 solicitações. A grande diferença entre o volume solicitado e o dinheiro que é liberado deve-se justamente ao baixo risco que a empresa quer correr.
A procura maior é de pessoas que desejam quitar dívidas, além de interessados em abrir pequenos negócios e financiamentos de estudos ou viagens. Uma usuária de Belo Horizonte, por exemplo, trocou uma dívida de R$ 3 mil no cartão de crédito com juro de 11% ao mês por um empréstimo com prazo de um ano e taxa mensal de 1,89%.
“Como o spread bancário no Brasil é um dos maiores do mundo, o potencial de empréstimos diretos entre pessoas é muito grande”, afirma Mattiuzzo. A tendência é que o aumento do crédito no País, que em cinco anos foi de impressionantes 342%, também impulsione essa nova modalidade (gráfico na página 92). “Pode, sim, haver uma concorrência maior nos empréstimos, mas é preciso deixar claro que o risco dessas transações pela internet é bem maior”, diz Ricardo Almeida, professor de finanças do Insper.
Por enquanto, o valor dos empréstimos fica entre R$ 1 mil e R$ 5 mil. A tendência é que a maturidade do mercado faça esses montantes crescerem, como ocorreu nos Estados Unidos. A Prosper, a maior rede de empréstimo entre pessoas do mundo, abre pedidos de até US$ 25 mil.
Chris Larsen criou a companhia em 2006 pouco antes do estouro da bolha de crédito no mercado imobiliário americano. O sucesso da sua iniciativa está nos números. Hoje, 960 mil pessoas estão cadastradas na Prosper e o montante de empréstimos se aproxima de US$ 1 bilhão. Mais importante que isso, Larsen viu sua experiência ser reproduzida em outras partes do mundo: o Comunitae, na Espanha, o Wokai, na China, e o Zopa, que está na Itália, no Reino Unido, Japão e Estados Unidos.
À primeira vista, esse tipo de empréstimo se parece com práticas ilegais de agiotagem. Porém, só são considerados fora da lei brasileira aqueles que cobram juros extorsivos ou exigem a penhora de bens, como imóveis ou automóveis. É permitido o contrato que envolva dinheiro, desde que o juro máximo mensal seja de 1%.
“O cartão de crédito cobra 14% ao mês, mas se alguém oferecer 3% a lei impede. Apenas bancos e financeiras estão liberadas para cobrar acima do limite legal”, diz Mattiuzzo, que passou 17 anos dentro do sistema bancário brasileiro, como executivo do Nacional e Unibanco.Por isso, para montar a Fairplace, foi preciso criar um contrato no qual a empresa será a representante autorizada das duas partes e receberá juro de 1%, mais as taxas de serviço.
E o que isso significa? Para quem empresta, a administração dos recursos custa 2% sobre o total concedido. Quem toma os recursos, paga sobre o montante total 5% se o prazo for de um ano e 8% se for de dois anos, além de R$ 50 como taxa para realização do cadastro. |
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